A semana que separou a última segunda-feira (29) desta terça-feira (30) foi, na prática, a semana em que o Tocantins deixou o debate informal da pré-campanha e entrou oficialmente no calendário das eleições gerais de 2026. Em menos de 48 horas, três movimentos simultâneos redesenharam a disputa pelo Governo e pelo Senado, jogaram luz sobre custos que vão pesar no bolso do consumidor e revelaram a dimensão que o crime organizado já adquiriu no Estado.
Do lado dos palanques, dois nomes despontaram com agendas de peso. O deputado federal Carlos Gaguim (União Brasil) — pré-candidato ao Senado — oficializou a largada da pré-campanha durante a entrega de 82 máquinas e equipamentos agrícolas da Codevasf, em solenidade que reuniu cerca de 50 prefeitos, mais de 300 vereadores, deputados federais, estaduais e lideranças regionais, conforme报道agem do Conexão Tocantins. O vice-governador Laurez Moreira (PSD) — pré-candidato ao Governo — assinou, no mesmo período, o Termo de Compromisso pela Integridade das Eleições 2026 no Tribunal Regional Eleitoral do Tocantins (TRE-TO), na condição de presidente estadual do PSD. Partidos e a Justiça Eleitoral selaram, entre sábado (28) e segunda (29), um pacto público pela lisura do pleito de outubro.
O simbolismo dos atos, no entanto, contrasta com a substância. A entrega de máquinas em solenidade que mistura Codevasf (estatal federal) e mandatos parlamentares no Estado reabre uma questão conhecida: a fronteira entre ação administrativa e ação eleitoral, justamente quando a Justiça Eleitoral acabara de cobrar, literalmente no dia anterior, compromisso com regras claras. O Conexão Tocantins registrou que Gaguim indicou 32 das 82 máquinas; o restante foi distribuído a partir de indicações de outros parlamentares, com liberações “gradativas” mediante “regularização documental” — descrição que, em ano de campanha, convive com a vigilância de promotores e juízes.
Laurez Moreira tentou ocupar o espaço institucional: “Eu sempre acreditei na Justiça Eleitoral. Disputei várias eleições ao longo da minha vida e nunca tive nenhum dissabor em relação à sua atuação”, afirmou ao assinar o termo. A fala se inscreve num momento em que o grupo governista ainda busca um nome para o Palácio Araguaia — o governador Wanderlei Barbosa (Republicanos) está em fim de mandato e seus aliados ainda não anunciaram palanque próprio para a sucessão.
Conta de luz, operação e segurança pública
Fora do ringue eleitoral, a semana trouxe duas notícias de impacto direto na vida do tocantinense. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou, na terça-feira (30), um reajuste tarifário de até 8,11% nas contas de energia do Tocantins, com novos valores vigentes a partir de 4 de julho, conforme报道agem do G1 Tocantins. O aumento médio ficou em 7,92%, e a Energisa atende cerca de 707 mil unidades consumidoras em 139 municípios. Em 2025, o reajuste havia sido de 12,31% — o que coloca o atual como o segundo ano seguido de alta significativa, sem que, até o momento, a Aneel ou o governo estadual tenham anunciado mecanismos de mitigação para consumidores de baixa renda ou para o setor produtivo.
No mesmo dia, o Ministério Público do Tocantins, por meio do Gaeco, desencadeou a Operação Regresso II — desdobramento de fase anterior que mirava a presença do Primeiro Comando da Capital (PCC) no Estado. Foram cumpridos 13 mandados de prisão preventiva, 14 de busca e apreensão e o sequestro de R$ 1 milhão em ativos financeiros, com diligências simultâneas em Araguaína, Gurupi, Guaraí, Paraíso do Tocantins e Porto Nacional. As investigações apontam para um núcleo da facção responsável por aplicar as regras do chamado “Tribunal do Crime” — espancamentos, torturas e execuções — e por movimentar dinheiro ilícito via Pix, em esquema de lavagem que, segundo o Gaeco, demonstra “organização criminosa estruturada, com divisão de funções e atuação permanente”. Atingir cinco das maiores cidades do Estado mostra que o problema deixou de ser pontual e passou a exigir políticas de inteligência permanente.
Justiça, educação e os próximos capítulos
Em decisão de 2ª instância, o Tribunal de Justiça do Tocantins concedeu habeas corpus ao ex-prefeito de Goiatins, Vinícius Donnover Gomes, determinando seu retorno ao regime semiaberto. Donnover havia sido preso na segunda (29) por regressão de regime. A juíza de plantão entendeu que a decisão anterior não apresentou “fundamentação concreta” para o regime fechado e que “a reincidência não possui caráter absoluto”. É mais um capítulo da Operação Bagration, da Polícia Federal, que em 2016 mirou desvio de cerca de R$ 10 milhões dos cofres de Goiatins e culminou na condenação de Donnover em 2021.
Na Assembleia Legislativa, o deputado estadual Professor Júnior Geo (PSDB) protocolou requerimento para que o Governo regulamente o “Descanso de Voz” dos professores da rede estadual. O direito está previsto no artigo 34 do novo Plano de Cargos, Carreira e Remuneração (PCCR) do Magistério, mas, segundo o parlamentar, sem regulação do Executivo a categoria segue exposta a doenças ocupacionais como a disfonia crônica. É tema técnico, mas com leitura política: o deputado coloca o governo Wanderlei Barbosa em posição de ter de responder, em plena corrida eleitoral, sobre direitos já garantidos em lei.
A partir do sábado (4 de julho), o calendário eleitoral entra em nova fase: apresentadores de rádio e televisão pré-candidatos já deixaram o ar (prazo terminou em 30 de junho), pré-candidatos ficam proibidos de participar de inaugurações de obras públicas e fica vedada a contratação de shows artísticos com recursos públicos. No campo das obras, o destaque fica com a duplicação da BR-010 entre Palmas e Porto Nacional — uma das rodovias com maior taxa de acidentes do Estado —, tema de seminário em Porto Nacional com recursos de R$ 14 milhões da bancada federal (R$ 3 milhões via mandato do deputado Ricardo Ayres) e a duplicação da Ponte Governador José Wilson Siqueira Campos, que liga Palmas a Luzimangues, com entrega prevista até o fim do ano.
Em Araguaína, a Prefeitura do Wagner Rodrigues entregou o Centro Educacional Infantil (CEI) Luz do Tocantins — apresentado como a maior creche da Região Norte, com capacidade para mais de mil crianças de 6 meses a 5 anos e atendimento em tempo integral e noturno, modelo inédito no Estado inspirado em programa do Governo Federal.
O retrato da semana, portanto, é o de um Estado que se prepara para a campanha ao mesmo tempo em que tenta — entre decisões judiciais, operações policiais, reajustes tarifários e entregas de obra — administrar uma日常 cada vez mais complexa. As próximas duas semanas, com o recesso de meio de ano e o início efetivo do calendário eleitoral, prometem mover o xadrez da sucessão estadual. E, no centro, a pergunta que se repetirá nos gabinetes de Palmas, Araguaína e Gurupi: quem terá, em outubro, o palanque mais largo — e a fatura mais barata para o eleitor.
Por Tribuna — colunista político do Líder Tocantins.
















