A Velhice Esquecida: Um Grito por Dignidade na Saúde Pública

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Quem tem o privilégio de não ter a vida interrompida precocemente conhece a velhice, a vulnerabilidade da única etapa da vida em que o fim é definitivo. É um período que exige um olhar atento, um investimento na nossa própria aposentadoria, mas que, lamentavelmente, a saúde pública parece ter esquecido. A fragilidade do corpo que envelhece, a hipersensibilidade à temperatura, a pele que afina e se torna dolorosamente sensível ao frio, tudo isso é uma realidade para muitos, uma realidade que a maioria de nós, em nossa juventude, mal consegue imaginar.

Imagine-se em uma situação onde o frio é tão agonizante e limitante que parece penetrar os ossos. Mesmo que você tente, a sensação real de um idoso é indescritível, pois sua pele ainda não chegou a essa etapa cronológica. É algo tão simples de compreender, mas que, para muitos, permanece invisível. Se um idoso em sua casa dissesse que está com frio, você prontamente providenciaria um cobertor, um ato de humanidade básico. No entanto, em Araguaína, na UPA, esse simples gesto parece ser um luxo inatingível.

O Frio da Indiferença na UPA

É revoltante constatar que um idoso, já fragilizado e em sofrimento, não tenha direito a um cobertor em uma unidade de pronto atendimento. A justificativa? Cobertores são apenas para a ala amarela. Enquanto um paciente idoso recebia medicação, tremendo de frio, a dignidade era negada por um protocolo frio e desumano. É um detalhe tão pequeno, mas que revela a profunda desumanização de um sistema que deveria acolher. Pagar por um atendimento digno, que custa mais da metade do salário ou aposentadoria de muitos, não deveria ser a única opção. A saúde tem um preço, e os menos favorecidos pagam alto, não com dinheiro, mas com a humilhação e as consequências de precisar usar um serviço que se torna uma tortura psicológica.

O mesmo idoso, pouco depois, foi transferido para a sala amarela. A frustração era palpável. Ele acreditava que, após os exames, receberia alta, que finalmente iria para casa. A dor no corpo, o frio persistente, a superlotação em um espaço tão estreito, o barulho incessante do ambiente hospitalar, tudo isso era um fardo insuportável. Mas outro pesadelo o esperava: a sala amarela, sem leito, onde a única opção era esperar sentado em uma poltrona extremamente desconfortável. Quem já passou por ali sabe o que é. Para os acompanhantes, uma cadeira de plástico barata já é lucro. Mas, ironicamente, foi na sala amarela que ele conquistou seu cobertor, dois, na verdade, um para tentar ser o travesseiro e outro para se cobrir.

O Caos do Hospital Regional: Um Reflexo da Desassistência

Ele acreditava que ali conseguiria o repouso necessário, sem precisar retornar ao Hospital Regional, um lugar que se tornou sinônimo de terror psicológico. Dois dias antes de sua ida à UPA, ele havia recebido alta do Regional, onde a resistência ao caos era a parte mais difícil do tratamento. Um ambiente onde a falta de álcool gel é uma loucura, o pronto-socorro está sempre superlotado e o serviço humanizado é extremamente ralo. Ir ao banheiro e encontrar papel higiênico é como ganhar na loteria. Além da escassez, não é permitido entrar com comida, travesseiro ou edredom (além de outros itens). E o mais cruel: muitos pacientes reclamam que seus itens pessoais como roupas, saboneteiras, edredons, são confiscados e nunca mais recuperados, como se fossem oferendas perdidas no “feirão” do Regional. Onde está o acerto? Ou protocolo no papel não acompanha a realidade?

Não há travesseiros, mas há camas entre as portas dos banheiros, que foram designadas para pessoas pretas e idosos, coincidência ou reflexo de uma limpeza social que ainda tentam impor? Não há sabonete em barra para os pacientes se banharem. Lá dentro, é cada um por si. Pacientes com dificuldade para dormir devido à falta de controle de luz, resultando em instabilidade mental e emocional. Uma das coisas mais impactantes é que os acompanhantes são responsáveis por levar suas próprias cadeiras, a maioria apenas um banquinho. Imagine um plantão de 12 horas, com trocas permitidas apenas às 7h e às 19h. Para pacientes cuja rede de apoio é composta por apenas uma pessoa, a vulnerabilidade é extrema. Há relatos infinitos como de pacientes com sangue vazando, aguardando atendimento por um tempo que não seria necessário, ou pacientes que passam mais de 24h sem receber a atenção do médico responsável. O pronto socorro é uma verdadeira selva, mal é possível se locomover sem esbarrar em algo ou alguém.

Somos forçados a nos confortar com a ideia de que “não é confortável, mas resolve”. Mas o que exatamente significa “resolvido”? Casos de pacientes que recebem alta sem o tratamento concluído não são exceção, e muitos retornam a esse furacão dias depois com a mesma problemática. Em meio a esse cenário desolador, a atuação dos psicólogos, em especial a psicóloga Lorrany Nunes, é um alento, um exemplo de profissionalismo e humanização. Se todos tivessem sua competência, certamente teríamos menos problemas. É importante ressaltar que esta não é uma crítica aos profissionais de saúde, que já sofrem com plantões exaustivos, mas sim à gestão, ao protocolo e à estrutura.

Um Apelo por um Futuro Digno

A superlotação do Hospital Regional não é novidade, especialmente porque ele precisa atender pacientes de diversas outras cidades ( uma pauta para outro dia). Mas quando os idosos serão vistos como pessoas, e não como um fardo? Questiona-se sobre o novo hospital regional no Ipe. Idosos precisam de uma ala própria, ou melhor ainda, um espaço exclusivo para eles. Além da UMA (Universidade da Maturidade), que outros projetos existem para que a terceira idade não seja um fardo maior do que já é? O PAI (Pronto Atendimento Infantil) é um projeto excelente; os idosos precisam de um espaço similar, pois têm necessidades específicas. Ninguém vai ao hospital porque quer.

Precisamos de representantes que realmente enxerguem e realizem projetos conforme as reais necessidades da população, acompanhando o processo de vida de todos os indivíduos. Precisamos de oportunidades, de cuidado, de honestidade. A dignidade na velhice não é um privilégio, é um direito fundamental que está sendo brutalmente negado. Até quando permitiremos que nossos idosos sejam tratados com tamanha indiferença?

Por Giulia Serbu

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Respostas de 5

  1. É revoltante a situação da saúde pública em Araguaína. Tanto no Hospital Regional quanto na UPA, o cenário é de abandono e desrespeito com quem mais precisa.

    Pacientes enfrentam superlotação, falta de itens básicos como papel higiênico, ambientes sujos e condições totalmente insalubres. Quem já chega fragilizado pela doença ainda precisa lidar com um espaço que coloca sua saúde em ainda mais risco.

    O atendimento, muitas vezes, deixa a desejar. Falta acolhimento, organização e respeito com a população. O que deveria ser um lugar de cuidado se transforma em mais sofrimento.

    Saúde é um direito básico, não um privilégio. A população de Araguaína merece atendimento digno, estrutura adequada e profissionais valorizados para oferecer um serviço humano e eficiente. Essa realidade precisa mudar com urgência.

  2. O que mais me incomoda nessa situação da saúde aqui em Araguaína, é que isso não é de 2026, esses são problemas custumaz, de muitos anos. Tem a promessa de um novo hospital, tem demorado, com um hospital novo vai ser diferente? Ou as mesmas práticas, situações vão continuar acontecendo? O que tem que mudar é as políticas públicas para a área da saúde. Políticas públicas visando o bem está de quem trabalha na saúde, de quem é atendido. Tem que haver qualidade, é um direito vital para todos.

  3. Situação sistematicamente degradante a todos os cidadãos. Certamente a população mais velha é ainda mais vulnerável, mas a gestão da saúde pública é uma faca no pescoço de todos. Espero que um dia tenhamos melhoras

  4. Parabenizo pela coragem e sensibilidade desta matéria, que expõe uma realidade dura, cruel e muitas vezes invisível: o sofrimento diário enfrentado por idosos e por tantas outras pessoas nos serviços públicos de saúde.
    Escrevo não apenas como cidadã, usuária do SUS e profissional sanitarista, mas como filha de um idoso que viveu na pele esse cenário de dor, desamparo e desumanização. E talvez seja justamente por ocupar esses três lugares que minha indignação seja tão profunda.
    Eu defendo o SUS com convicção. Defendo porque conheço sua importância, sua potência e seu papel histórico na garantia do direito à saúde. Mas defender o SUS também significa ter coragem de denunciar quando ele falha. Significa não romantizar a precariedade. Significa não aceitar que a população seja obrigada a agradecer por um atendimento que, muitas vezes, ocorre em condições indignas.
    Ver um pai idoso, fragilizado, com dor, tremendo de frio, emocionalmente abalado, aguardando atendimento em meio à superlotação, ao desconforto, ao barulho e à ausência de condições mínimas de acolhimento, é algo que atravessa qualquer filho de forma irreparável. Mais do que testemunhar o adoecimento físico, é assistir à perda gradual da dignidade de quem passou uma vida inteira trabalhando, cuidando de outros e contribuindo para a sociedade.
    O mais doloroso é perceber que parte desse sofrimento não decorre da doença em si, mas da forma como o sistema está estruturado ou desestruturado para receber quem mais precisa. Sofre-se não apenas pela enfermidade, mas pela espera, pelo abandono, pelo frio, pela falta de privacidade, pela ausência de conforto, pelo sentimento de invisibilidade.
    Naturalizamos o inaceitável. Passamos a tratar como “normal” o idoso esperar horas em dor, permanecer dias em corredores, não ter acesso ao básico, como um travesseiro, um cobertor, um banheiro em condições adequadas ou um ambiente minimamente silencioso para repousar. Não, isso não é normal. Não pode ser.
    O envelhecimento não pode ser tratado como sentença para o sofrimento. A velhice não pode significar perda automática de dignidade.
    Precisamos falar, com urgência, sobre o papel fundamental da Atenção Primária à Saúde nesse cenário. Uma APS forte, presente e resolutiva é capaz de acompanhar a pessoa idosa de forma contínua, prevenir agravamentos, manejar doenças crônicas e reduzir significativamente internações e atendimentos evitáveis em urgência e emergência. Quando a atenção básica falha, toda a rede colapsa e os hospitais tornam-se o retrato mais brutal dessa desorganização.
    Também é necessário dizer, com honestidade, que esta crítica não se volta aos profissionais da linha de frente, que muitas vezes atuam exaustos, adoecidos e sem condições adequadas de trabalho. O problema é maior: é estrutural, político e gerencial. Trata-se de subfinanciamento, falta de planejamento, ausência de prioridade e negligência histórica com a saúde pública e com a política de atenção à pessoa idosa.
    Estamos envelhecendo como sociedade, mas seguimos sem preparar nossas estruturas de cuidado para essa realidade. Onde estão os espaços adequados para assistência à pessoa idosa? Onde estão os fluxos diferenciados? Onde está o planejamento para um país que envelhece rapidamente?
    A forma como tratamos nossos idosos é o reflexo mais honesto dos valores de uma sociedade. E hoje, infelizmente, o que estamos refletindo é descaso.
    Que esta matéria não seja apenas lida e esquecida. Que ela incomode. Que ela provoque indignação. Que ela mobilize gestores, profissionais, parlamentares e toda a sociedade. Porque ninguém deveria terminar a vida sendo tratado como um peso. Porque envelhecer com dignidade não é privilégio, é direito.
    E porque, se tivermos sorte de viver o suficiente, um dia seremos nós naquela cadeira, naquele corredor, naquela maca improvisada, esperando que alguém se lembre de nossa humanidade.

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