De mulher pra mulher: a luta que não envelhece

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Meu nome é Silene Borges.
Sou jornalista, apresentadora, empresária. Mas, acima de tudo, sou uma mulher de 60 anos que aprendeu, desde cedo, que a nossa voz é a única ferramenta que ninguém pode tirar da gente. Cheguei ao Tocantins em 1988, meses antes de o mapa brasileiro ganhar esse novo traçado. Era um lugar de fronteira, de gente corajosa e de desafios imensos. Ali, comecei a construir minha história profissional, apresentando telejornais, primeiro por aqui, depois em rede nacional pela CNT. Fui mãe de três filhos que nasceram, foram criados e se formaram nessas terras. E, enquanto isso, testemunhei e combati, com as armas que tinha, uma outra fronteira: a da violência contra a mulher.

Naquela época, não existia Lei Maria da Penha. As delegacias não eram especializadas, e o conceito de “violência doméstica” era abafado dentro de casa, tratado como “problema de família”. Eu via aquilo e não me calava. Lembro de noites em que acolhi mulheres assustadas na minha própria casa, com seus olhos cheios de medo e suas almas em frangalhos. Batia em portas de delegacias comuns, implorando por ação, por escuta, por justiça, num tempo em que a palavra “misoginia” sequer era popular. Eu combatia a intolerância religiosa, a de gênero, o preconceito, simplesmente porque aquilo feria a humanidade. Era o certo a se fazer.

Não havia internet. Portanto, não haviam cliques ou “seguidores”. Quando a internet chegou era a cabo, e para poucos. A comunicação era lenta, mas a dor das mulheres, essa, era veloz e silenciosa. E eu, com meu microfone ou sem ele, tentava dar voz a esse grito abafado. Fiz isso porque acreditava – e acredito – que nenhuma mulher deveria ter medo de ser quem é, de dizer o que pensa, de ocupar o espaço que lhe pertence.

Hoje, aos 60 anos, olho para trás e vejo que muita coisa mudou. Temos leis, temos delegacias da mulher, temos uma sociedade que (ainda que lentamente) começa a discutir o assunto. Mas, pasmem, eu continuo fazendo exatamente o que fazia há 40 anos. Continuo acolhendo, denunciando, combatendo. Porque, se as leis avançaram, a mentalidade de muitos ainda patina no mesmo lugar. A violência mudou de forma: ganhou as redes sociais, os aplicativos de relacionamento, mas a essência é a mesma: o controle, a posse, a covardia de quem tenta diminuir o outro para se sentir grande.

E é por isso que, neste Dia da Mulher, não quero apenas flores e homenagens. Quero que a gente reflita: quantas de nós ainda têm medo? Medo de andar na rua, de chegar em casa tarde, de discordar, de se separar, de simplesmente SER? Não podemos aceitar que, em pleno século XXI, uma mulher morra por recusar um copo de água ou por decidir encerrar um relacionamento abusivo.

De mulher pra mulher, eu digo: a nossa força está na união. Quando acolhi aquelas mulheres em minha casa, não fiz por caridade, fiz por irmandade. Porque a luta de uma é a luta de todas. Porque, como costumo dizer, “uma por todas e todas por uma” não é um bordão, é um pacto de sobrevivência.

Que possamos, juntas, continuar batendo nas portas, levantando as vozes, ocupando todos os lugares. Seja nas redações, nas empresas, nas ruas ou nos lares. Que nossas filhas e netas não precisem esperar mais 40 anos para ver o que ainda não mudou. Que a nossa história sirva de impulso, não de nostalgia.

Porque eu, aos 60, continuo na luta. E sei que você, que está lendo, também está. Sigamos.

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