Preço da Aliança: Quando a “confissão” de Wanderlei Barbosa escancara os bastidores do poder no Tocantins

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Por: Silene Borges

Araguaína Tocantins

Nos últimos dias, um vídeo do governador do Tocantins, Wanderlei Barbosa (Republicanos), passou a circular com força nas redes sociais e nos grupos políticos do estado. O que poderia ser mais um ato de apoio político — neste caso, o anúncio do respaldo à pré-candidatura da senadora Dorinha Seabra (União Brasil) em detrimento do correligionário Amélio Cayres (Republicanos) — transformou-se em um capítulo à parte na pré-campanha eleitoral. Isso porque, ao tentar justificar sua escolha, Barbosa fez uma afirmação que, aos olhos dos analistas políticos e da opinião pública, soou menos como uma explicação e mais como uma confissão explícita de um acordo de bastidor.

Em seu pronunciamento, o governador declarou que foi “feita uma negociação” para que ele pudesse retornar ao cargo. A fala faz referência direta ao período conturbado recente, de quando Wanderlei Barbosa foi afastado do comando do Executivo estadual por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), sob suspeitas de envolvimento em um esquema de corrupção investigado pela Polícia Federal num esquema de cestas básicas.

A declaração é um achado raro no jornalismo político: o agente público admitindo, em tom de naturalidade, que sua permanência no poder esteve condicionada a um pacto político com setores do Judiciário ou com grupos de influência que detinham poder de fogo sobre seu destino jurídico.

A “confissão” e seus ecos jurídicos

Ao dizer que houve uma “negociação” para seu retorno, Wanderlei Barbosa toca em um ponto nevrálgico da separação dos Poderes. O afastamento de um governador é uma medida excepcional, prevista na legislação para garantir a ordem pública e a lisura das investigações. Seu retorno, em tese, deveria ser fruto da análise técnica dos autos processuais — ou do reconhecimento da inexistência de justa causa para a medida cautelar —, e não de uma “negociação” política.

A fala do governador, gravada e amplamente compartilhada, coloca luz sobre uma suspeita que já circulava nos corredores do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e do Tribunal de Justiça do Tocantins (TJTO): a de que o desfecho do processo que o afastou foi costurado nos bastidores, envolvendo a entrega de palanques, apoio a determinadas candidaturas e a formação de uma base aliada que garantisse a governabilidade em troca da “paz” jurídica.

Para a senadora Dorinha Seabra, o vídeo é um desses apoios que vêm com o gosto amargo do ônus. Ao ser citada como a beneficiária da “negociação” que salvou o mandato do governador, sua pré-candidatura passa a carregar o peso de ser parte de um arranjo que muitos classificam como uma espécie de “salvo-conduto” político.

O impacto no cenário político tocantinense

A pré-candidatura de Amélio Cayres, que fica de fora do palanque oficial do governo, ganha um argumento de peso. Cayres pode agora se apresentar como a alternativa “independente”, descolada do que se convencionou chamar de “antigos métodos” da política tocantinense. Por outro lado, Dorinha Seabra, que tem uma carreira consolidada na educação e no Congresso Nacional, vê-se agora diante da necessidade de explicar ao eleitorado se compactua ou não com a lógica de que o apoio do governo veio como moeda de troca para “fechar os olhos” da Justiça.

O vídeo também expõe a fragilidade institucional do estado. O Tocantins, desde a redemocratização, convive com ciclos de intervenções e tensões entre os Poderes. A normalidade democrática exige que os governantes sejam julgados pelos atos que praticam, e não que negociem sua permanência no cargo com base em alianças eleitorais futuras.

Conclusão

A avaliação que se faz sobre o vídeo do governador Wanderlei Barbosa é que ele cometeu um ato falho de consequências imprevisíveis. Em política, os acordos existem e são parte do jogo democrático, desde que respeitados os limites da legalidade. No entanto, ao admitir publicamente que sua recondução ao cargo foi fruto de uma “negociação” atrelada a apoios eleitorais, Barbosa não apenas dá munição à oposição, mas também entrega ao Ministério Público e ao Judiciário um elemento concreto que pode ser utilizado para revisitar os termos do processo que o afastou.

A “confissão” pública, ainda que involuntária, soa como um alerta sobre a porosidade entre o interesse público e os acordos privados na política tocantinense. Resta saber se os órgãos de controle e a sociedade civil tratarão essa fala como mais um jargão político ou como a prova de que a justiça, no Tocantins, esteve à venda por um apoio nas urnas.

Enquanto isso, o eleitor tocantinense assiste a um espetáculo em que os bastidores foram abertos por um descuido do próprio protagonista, revelando que, por trás das candidaturas, o que muitas vezes está em jogo não é o projeto de desenvolvimento, mas a sobrevivência pessoal de quem está no poder.

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