Silene Borges(Araguaina- To)
A recente declaração do deputado federal e pré-candidato ao governo do Tocantins, Vicentinho Alves, de que se eleito “vai colocar o secretário de saúde dentro do Hospital Geral de Palmas (HGP)” é daquelas frases feitas para render manchete, mas que não resistem a cinco minutos de uma análise minimamente séria sobre gestão pública. A proposta soa como música para os ouvidos de um eleitorado cansado de filas e da falta de assistência, mas, na prática, reduz a complexidade da saúde estadual a uma mísera peça de marketing político.
Ora, a ideia carrega uma premissa tão frágil quanto perigosa: a de que os problemas do sistema de saúde se resolvem com a vigilância física de uma autoridade. É a crença no que podemos chamar de “gestor-herói”, aquele que, com sua presença quase mística em um único ponto da rede, será capaz de resolver, no grito e no olho no olho, o colapso de todo um sistema. É uma visão simplória e profundamente equivocada do que é administrar uma pasta de saúde .
Se a lógica do deputado for levada a sério, por que parar no HGP? O Tocantins possui hospitais regionais em Araguaína, Gurupi, Porto Nacional, além de dezenas de unidades de pronto-atendimento espalhadas pelo interior. Vamos precisar de um secretário dentro de cada um deles? E nos 139 municípios, quem cuidará da atenção básica, que é a porta de entrada do SUS? O secretário de Estado não é um superintendente de hospital; sua função é macro, estratégica. É ele quem deve cuidar da regulação de leitos, da compra centralizada de medicamentos, da articulação com o governo federal e da integração de toda a rede de atenção à saúde . Confinado a um hospital, por mais importante que ele seja, o secretário estaria, na verdade, abdicando de sua função principal para se tornar, no máximo, um diretor-geral de luxo.
A fala do deputado escancara uma visão atrasada e descolada da realidade administrativa, o que é ainda mais grave quando contrastada com o histórico do próprio candidato. Vicentinho Alves, que segundo ele mesmo admite, não administra uma empresa há 12 anos (que, inclusive, foi fechada), parece querer aplicar no Estado a lógica falida de uma gestão amadora, baseada no “apagar de incêndios” e na presença simbólica. Saúde pública não se faz com improviso ou com “jeitão”. Exige planejamento, conhecimento técnico e, acima de tudo, a capacidade de enxergar o sistema como um todo orgânico, e não como ilhas de problemas.
É irônico notar que, ao tentar criticar a gestão atual propondo uma solução “mão na massa”, o deputado ignora que a administração estadual já deu um passo na direção da presença fiscalizadora com o programa “Gabinete Itinerante”, que leva o secretário para dentro das unidades. A diferença crucial é que uma coisa é uma ferramenta de gestão; outra, completamente distinta, é achar que a ferramenta é a gestão em si.
O que realmente falta na saúde do Tocantins não é um secretário acampado no HGP ou no HGA. Faltam decisões estruturantes : falta um plano de carreira que valorize os profissionais para mantê-los no estado, falta um modelo de gestão eficiente para as filas de regulação, falta comando e controle para que os recursos cheguem à ponta sem se perder em burocracias. A população do Tocantins merece mais do que promessas simplórias e apelos emocionais. Merece propostas que demonstrem, de fato, um entendimento profundo dos problemas e a competência técnica para resolvê-los. Colocar o secretário dentro do HGP é apenas uma forma elegante de esconder a falta de um projeto para toda a rede. E rede que se rompe em um ponto, invariavelmente, arrebenta-se por completo.

















