Milão-Cortina, Itália –
Quando Lucas Pinheiro Braathen cruzou a linha de chegada no slalom gigante do esqui alpino e garantiu a primeira medalha de ouro da história do Brasil nos Jogos Olímpicos de Inverno, no último sábado (14), não estava apenas celebrando uma conquista pessoal. O feito inédito representou o coroamento de uma política pública de investimento no esporte que vem sendo construída há décadas e que, em 2026, atingiu seu ápice.
A delegação brasileira que fez história na Itália – com recorde de 14 atletas e uma medalha de ouro – é, em grande medida, fruto do apoio do governo federal. E o principal protagonista dessa história chama-se Bolsa Atleta.
Investimento que virou medalha
Dos 14 atletas que representaram o Brasil nos Jogos de Inverno de 2026, nove eram beneficiários diretos do programa Bolsa Atleta no momento da competição. Outros dois já haviam recebido o auxílio em algum momento de suas carreiras. Ao todo, o governo federal destinou R$ 1,6 milhão especificamente para a preparação da equipe que viajou à Itália.
O programa, que completa 22 anos em 2026, mostrou sua importância justamente na modalidade onde o Brasil enfrenta as maiores dificuldades: esportes de neve e gelo. Em um país tropical, sem tradição e sem infraestrutura natural para treinamento, o Bolsa Atleta funciona como a base que permite a atletas como Lucas Pinheiro Braathen e Nicole Silveira treinarem no exterior, contratarem técnicos especializados e competirem em alto nível.
“O Bolsa Atleta é o que nos mantém vivos”, disse Nicole Silveira, medalhista de ouro no skeleton, em entrevista coletiva após a conquista. “Não é só o dinheiro, é a segurança de saber que você pode se dedicar integralmente ao esporte porque o governo está te apoiando. Sem isso, seria impossível para um país como o Brasil competir em esportes de gelo.”
Categoria Pódio: o salto de qualidade
Um dos diferenciais para o resultado histórico foi a presença de atletas brasileiros na categoria Bolsa Pódio, a mais alta do programa. Criada para dar suporte a esportistas com reais chances de medalha em Olimpíadas, a categoria oferece valores que chegam a R$ 16.629 mensais.
Foi nessa condição que Nicole Silveira e outros atletas de elite puderam se preparar com a estrutura necessária para competir com as potências do esporte de inverno – países como Noruega, Alemanha e Áustria, que contam com neve natural e tradição centenária.
“O Bolsa Pódio muda o patamar”, explicou o ministro do Esporte, André Fufuca, que viajou a Milão para acompanhar a delegação. “Não podemos levar neve para o Brasil, mas temos a garantia de que o Bolsa Atleta pode nos ajudar a levar medalhas para o Brasil. E isso se confirmou agora.”
Mais que dinheiro: presença que incentiva
O apoio do governo federal não se limitou aos repasses financeiros. A presença do ministro do Esporte na Itália durante os Jogos enviou um sinal claro: o Brasil levava a sério sua participação nos Jogos de Inverno.
Fufuca acompanhou de perto as provas, esteve com os atletas na vila olímpica e participou das celebrações após a conquista do ouro. Para os esportistas, o reconhecimento institucional tem um peso simbólico importante.
“Ver o ministro aqui, acompanhando a gente, mostra que o esporte de inverno não é mais um parente pobre no Brasil”, disse Isabel Clark Ribeiro, chefe da missão brasileira e ela própria pioneira – foi o 9º lugar em Turim 2006 que, por anos, foi o melhor resultado do país. “A gente sempre lutou muito com poucos recursos. Agora, com esse apoio, a gente vê que o trabalho valeu a pena.”
Um modelo que funciona
O Bolsa Atleta é o principal, mas não o único, mecanismo de apoio do governo federal ao esporte. A chamada Lei Agnelo/Piva, que destina recursos de loterias para os Comitês Olímpico e Paralímpico Brasileiros, e a Lei de Incentivo ao Esporte, que permite que empresas destinem parte do imposto de renda para projetos esportivos, completam o tripé de financiamento.
Foi essa combinação que permitiu à Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN) estruturar um programa de desenvolvimento de atletas, identificar talentos como Lucas Pinheiro Braathen (que tem pai brasileiro e mãe norueguesa, mas optou por representar o Brasil) e dar suporte para que competissem em igualdade com os melhores do mundo.
“O Brasil mostrou que, com planejamento e investimento, pode superar barreiras geográficas e climáticas”, afirmou o presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Paulo Wanderley. “Essa medalha não é só do Lucas ou da Nicole. É de todo um sistema que vem se aperfeiçoando.”
O legado para o futuro
A conquista inédita em 2026 já começa a gerar frutos para além do pódio. A exposição midiática dos Jogos de Inverno aumentou o interesse de jovens brasileiros por modalidades como esqui, snowboard e skeleton. E, para que esses novos talentos possam se desenvolver, o apoio governamental continuará sendo fundamental.
O ministro André Fufuca já adiantou que a pasta estuda ampliar os investimentos para esportes de neve e gelo, criando programas específicos de identificação de talentos e parcerias com países que tenham infraestrutura de treinamento.
“O ouro de 2026 não é um ponto final”, disse o ministro. “É o começo de uma nova história. Queremos que, em 2030, a delegação brasileira seja ainda maior e que mais brasileiros possam realizar o sonho de competir e vencer nos Jogos de Inverno.”
O que dizem os atletas
Para Lucas Pinheiro Braathen, o primeiro brasileiro a subir no lugar mais alto do pódio em uma Olimpíada de Inverno, o apoio do governo foi decisivo em sua escolha de representar o país do pai.
“Eu poderia muito bem competir pela Noruega, que é uma potência no esqui. Mas escolhi o Brasil porque queria fazer história. E o Brasil me acolheu, me deu suporte. O Bolsa Atleta me permitiu treinar com tranquilidade, viajar, competir. Hoje sou campeão olímpico e posso dizer: valeu a pena acreditar”, declarou, emocionado, após a conquista.
Nicole Silveira, que também faturou o ouro no skeleton, reforçou o discurso: “A gente ouve muita crítica sobre investimento público no esporte. Mas olha o que a gente conseguiu. Não é gasto, é investimento. E o retorno é esse: uma medalha inédita, um país inteiro feliz, crianças se inspirando. Isso não tem preço.”
Reportagem especial para a Agência Brasil

















