O ventre que abriga e a mão que mata: quando o patriarcado crucifica a maternidade.

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Reflexões sobre um crime que não é passional, mas sim o retrato cruel de uma sociedade que ainda precisa aprender com as mães o que é amar

Há poucos dias, o Brasil assistiu estarrecido a mais um capítulo da sua tragédia cotidiana: um homem matou os dois filhos pequenos porque a esposa – que já havia pedido divórcio – ousara, segundo ele, “traí-lo”.

Não foi um crime passional. Não foi um surto. Foi a face mais cruel do patriarcado em ação: a certeza, entranhada em mentes doentes, de que a mulher e os filhos são propriedade. E se a propriedade escapa, que seja destruída.

Mas eu não quero falar apenas sobre o que ele fez. Quero falar sobre o que ela vive. E sobre o que milhões de outras mulheres vivem em silêncio, em orações que ninguém ouve.

A punição eterna de quem ousou ser livre

Aquela mulher carregava, provavelmente há 15 anos, o peso de um casamento infeliz. Quinze anos tentando, suportando, adiando o fim por medo – um medo que, como vimos, não era irracional. Quando finalmente reuniu forças para romper, encontrou a punição mais cruel que um homem pôde imaginar: a morte dos filhos.

Agora ela vive. E viverá para sempre com duas marcas que não escolheu: a de ter sido uma mulher mal casada e a de ser uma mãe enlutada.

O assassino, esteja onde estiver, conseguiu o que queria: garantiu que ela jamais seja apenas ela mesma. Para o resto da vida, ela será “a mãe cujos filhos foram mortos pelo pai”. Cada amanhecer será um recomeço do luto. Cada data comemorativa, uma ferida aberta. Ele não matou apenas duas crianças. Matou o futuro dela como mãe. Matou a paz de todos os dias que ainda teria pela frente.

E isso não é amor. Isso é posse. É a lógica perversa de quem confunde ter com amar.

A oração silenciada das mães

E é aqui que a história escancara o abismo entre duas formas de estar no mundo.

Porque, enquanto um homem mata para punir, milhões de mulheres passam as noites em oração. Elas não ocupam manchetes. Não viram notícia. Mas sustentam o mundo com a força do que pedem em silêncio:

“Senhor, passa o câncer do meu filho para mim.”
“Deus, me leva antes de levar um filho meu.”
“Tira minha vida, mas poupa a dele.”

Essas preces não são figuras de linguagem. São o retrato mais exato do que é o amor incondicional. A mãe não negocia: ela se oferece. Ela não toma: ela entrega. Ela não destrói quando perde: ela morreria para que o outro viva.

Não é por acaso, portanto, que Deus tenha escolhido uma mulher para abrigar Jesus no ventre.

Não foi por acaso que o Verbo se fez carne e habitou entre nós a partir de um útero. Foi porque a mulher, na sua capacidade de gerar, de nutrir, de proteger e de amar para além de qualquer lógica, é a imagem mais próxima do divino que a humanidade pode conceber.

Maria disse sim a um projeto que a ultrapassava. E, assim como ela, toda mãe que oferece a própria vida em troca do filho repete, em carne e osso, o mesmo mistério: o amor que se doa inteiro, que não retém, que não aprisiona, que não mata.

A inversão do mundo

O patriarcado mata porque não pode mais possuir. O amor materno morreria para que o outro pudesse ser livre.

Essa é a diferença abissal entre duas lógicas: a do controle e a da entrega. A da espada e a do ventre. A da mão que aperta até sufocar e a do colo que acolhe até o fim.

Não se trata de romantizar a maternidade ou de impor à mulher o papel de mártir. Trata-se de reconhecer que, quando o assunto é amar sem esperar nada em troca, são as mães – e todos os que amam como elas – que sustentam o que ainda há de humano neste mundo.

A mulher desse crime vive agora o que implorou a Deus que não vivesse. Enterrou os filhos. Carrega um luto que não tem cura. Mas, mesmo no abismo da sua dor, ela não desejou a morte deles. Ela teria dado a vida, inúmeras vezes, para tê-los vivos.

O assassino, ao contrário, deu a morte para que ela sofresse para sempre.

Para não esquecer, para nunca mais

Este texto não é apenas um desabafo. É um grito. Um grito para que a sociedade pare de chamar de “crime passional” aquilo que é, na verdade, feminicídio em sua forma mais brutal e estendida. Um grito para que as mães enlutadas não sejam abandonadas ao silêncio e ao esquecimento. Um grito para que as orações silenciosas das mulheres que oferecem a própria vida pelos filhos sejam ouvidas – não por Deus, que já as ouve –, mas por um mundo que insiste em não aprender com elas.

Porque enquanto houver homens que matam para punir, e mulheres que morreriam para salvar, ainda teremos muito o que caminhar.

Que a dor dessa mãe não seja em vão. Que ela nos ensine, finalmente, a escolher o colo ao invés da espada. O amor que liberta ao invés da posse que mata.

Silene Borges
Jornalista

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