O Preço Incalculável do Ego Ferido: Filhos como Moeda de Troca e a Urgência de Romper o Ciclo da Violência

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Quanto vale o ego ferido de um homem? Até quando os filhos serão moeda de troca? Será que homens são incapazes de amar genuinamente? Essas perguntas ecoam com uma dor lancinante diante dos recentes e brutais episódios de violência que chocaram o Brasil. A notícia de Thales Naves Alves Machado, Secretário de Governo de Itumbiara, de 40 anos, que em um ato de vingança cruel e premeditada, tirou a vida dos próprios filhos para atingir a esposa, e o caso de um recém-nascido agredido pelo pai em Araguaína, são mais do que tragédias isoladas; são sintomas alarmantes de uma sociedade que ainda falha em proteger mulheres e crianças da fúria do controle patriarcal.

Itumbiara: O Feminicídio Velado e a Vingança Patriarcal

Em 11 de fevereiro de 2026, a cidade de Itumbiara, em Goiás, foi palco de um horror indizível. Thales Naves Alves Machado, Secretário de Governo, agricultor e gestor de shopping, de 40 anos, premeditou e executou um plano macabro. Ele atirou em seus dois filhos, Miguel Araújo Machado, de 12 anos, e seu irmão Benício Araújo Machado, de 8 anos. Ambos não resistiram aos ferimentos e faleceram .

A premeditação do crime é ainda mais chocante: Thales contratou um detetive particular para seguir sua esposa, Sarah Araújo Machado, em São Paulo, e recebeu vídeos dela com um suposto amante pouco antes de cometer a atrocidade. Horas antes, ele publicou um vídeo nas redes sociais, declarando amor aos filhos, um ato que, em retrospecto, revela a frieza e a manipulação de sua imagem pública e o planejamento de sua vingança cruel.

A motivação, segundo relatos e a própria indignação popular, foi a traição da esposa, Sarah Araújo Machado, vista aos beijos com outro homem em um restaurante. Thales, que era casado com Sarah há cerca de 15 anos , deixou uma carta de despedida onde atribuía a tragédia a uma crise conjugal e à infidelidade dela. Na carta, escrita com frieza, ele afirma que os filhos “partem com ele” e que são “anjos que infelizmente vieram comigo”, culpando Sarah pela tragédia e dizendo que ela não teve “verdade e respeito”. Este ato hediondo, de usar os filhos como instrumentos de punição e dor contra a mulher, configura-se como uma das formas mais perversas de feminicídio vicário. Não se trata apenas de um homicídio seguido de suicídio; é um crime de gênero, onde a vida dos filhos é sacrificada para destruir a vida da mulher, que sobrevive com a cicatriz eterna da perda e da culpa imposta por um sistema que a julga, enquanto a narrativa machista tenta justificar a barbárie. A crueldade se estendeu até o enterro dos filhos, onde Sarah foi hostilizada e precisou de escolta policial devido a ameaças e xingamentos de pessoas que a culpavam pela “traição” que teria motivado o crime.

A Reação Social: Culpabilização da Vítima e os Inimigos da Sabedoria

Após a repercussão do caso, uma parte da sociedade, que parece ser inimiga da sabedoria, levantou-se para julgar a mulher. Comentários odiosos inundaram as redes sociais: “Por que ela traiu ele?”, “Ele fez errado, devia ter matado ela!” e, ainda mais perverso, a insinuação de que o “maior monstro é o de saia”, que a mulher é a verdadeira manipuladora por trás da “reação” masculina. Essas frases revelam uma mentalidade retrógrada e perigosa, que não apenas minimiza a gravidade do crime, mas também transfere a responsabilidade do agressor para a vítima, perpetuando a ideia de que a mulher é culpada pela violência que sofre. É um reflexo da cultura machista que ainda vê a mulher como propriedade, a sua autonomia como uma afronta e a sua suposta “manipulação” como justificativa para a barbárie masculina.

Amigos e conhecidos do casal se manifestaram, alguns afirmando que o relacionamento já havia terminado, outros revelando que o próprio Thales cometia adultério. Independentemente dos problemas conjugais, nada justifica a barbárie. A vida de uma mulher não é um direito que o homem possui, e a infidelidade jamais pode ser uma sentença de morte ou de destruição familiar. A tentativa de justificar o injustificável apenas expõe a profunda misoginia enraizada em parte da nossa sociedade.

Fica a pergunta incômoda: se os papéis fossem invertidos, e uma mulher, supostamente traída, cometesse tamanha barbárie contra os filhos do casal para atingir o marido, a sociedade a julgaria com a mesma “compreensão” ou a condenaria sem ressalvas como um monstro? A resposta é um silêncio ensurdecedor que revela a hipocrisia e o peso desproporcional do julgamento sobre a mulher.

O Grito Silencioso dos Órfãos e a Epidemia do Feminicídio

O caso de Itumbiara não é um ponto fora da curva, mas um elo trágico em uma corrente de violência que assola o Brasil. Em 2025, o país registrou um recorde alarmante de 1.470 casos de feminicídio, uma média de quatro mulheres mortas por dia . Por trás desses números frios, há histórias de vidas ceifadas e, invariavelmente, de crianças que se tornam órfãs. Em 2025, a média foi de quatro novos órfãos por dia em decorrência do feminicídio.

Essas crianças, muitas vezes, perdem a mãe para a violência e o pai para a prisão ou, como no caso de Itumbiara, para a morte. Uma sátira cruel se impõe: enquanto a sociedade se choca com a perda de pais por tragédias, a dor e o trauma dessas crianças, vítimas diretas da barbárie, são imensuráveis e as consequências se estendem por gerações. Até quando a sociedade permitirá que o ego ferido de um homem destrua famílias e crie órfãos de tamanha violência?

Araguaína: A Violência que Começa no Berço

Na mesma semana do horror em Itumbiara, Araguaína, no Tocantins, foi palco de outra barbárie. Um recém-nascido de apenas 25 dias de vida sofreu traumatismo craniano após ser atingido durante uma agressão do próprio pai, Rafael Alves Paiva, contra a mãe . O bebê, que deveria estar seguro nos braços de seus pais, tornou-se vítima da violência doméstica, um ciclo que se perpetua e atinge os mais vulneráveis.

Esses casos, distantes geograficamente, mas conectados pela mesma raiz da violência de gênero, evidenciam que homens, casados, solteiros ou divorciados, têm agido como se fossem donos dos corpos femininos. Não aceitam ser contrariados, não sabem lidar com as próprias emoções e transformam suas frustrações em atos de brutalidade. Não é um problema da nossa geração; é um padrão histórico onde mulheres e crianças pagam um preço altíssimo pela imaturidade, irresponsabilidade e ego ferido de homens.

Um Problema de Saúde Pública e a Urgência de Ações

Sob a ótica da psicologia, a violência de gênero, o feminicídio e o feminicídio vicário são, sem dúvida, um problema de saúde pública. O ego ferido, a necessidade de controle e a incapacidade de lidar com a rejeição ou o término de um relacionamento são fatores psicológicos que, em um contexto de machismo estrutural, podem levar a atos extremos. A ideia de que a mulher é uma posse, e não um ser autônomo, alimenta essa mentalidade destrutiva.

O sentimento é de luto. Não é algo que podemos fechar os olhos e não sentir, sem ter um pingo de humanidade. Casos como o de Itumbiara e Araguaína nos lembram de outras tragédias, como mulheres mortas ao voltar do trabalho por não aceitarem o término, ou por ousarem ter uma opinião própria. O controle se estende a todos os aspectos da vida feminina, e a não aceitação desse controle pode ser fatal.

Romper os Padrões: O Que os Órgãos Públicos Podem Fazer?

Cabe à nossa geração romper os padrões que são passados. Mas a responsabilidade não pode recair apenas sobre a sociedade civil. Os órgãos públicos têm um papel crucial e urgente:

•Educação desde a base: Implementar programas de educação de gênero e combate ao machismo nas escolas, desde a primeira infância, para desconstruir estereótipos e promover o respeito.

Fortalecimento das redes de apoio: Ampliar e qualificar os centros de atendimento à mulher, delegacias especializadas e abrigos, garantindo que as vítimas tenham acesso a apoio psicológico, jurídico e social.

Punição rigorosa e eficaz: Assegurar que os agressores sejam punidos de forma exemplar, sem brechas na lei, e que a justiça seja célere e efetiva.

Monitoramento e prevenção: Desenvolver ferramentas de monitoramento de agressores e programas de intervenção para homens que apresentam comportamentos violentos, buscando a reeducação e a prevenção de novos crimes.

Campanhas de conscientização: Lançar campanhas massivas que desmistifiquem a ideia de posse sobre a mulher, que incentivem a denúncia e que mostrem as consequências devastadoras da violência de gênero.

A obrigatoriedade do acompanhamento psicológico para servidores públicos deve ser aplicada com mais rigor.

Até quando o ego e o descontrole serão justificativa para matar e machucar? A resposta está em nossas mãos. É preciso um basta. É preciso que a sociedade se levante, que os homens se responsabilizem por suas emoções e que o Estado garanta a segurança e a dignidade de todas as mulheres e crianças. O luto é real, mas a luta por um futuro sem violência deve ser ainda maior.

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Uma resposta

  1. Infelizmente esse é o reflexo da humanidade que não ama mais a Deus, e independente de ser homem ou mulher isso não é menos ou mais grave, vejo barbáries contra filhos cometidas tanto pelo pai como pela mãe, a vdd é que as pessoas estão cada dia se distanciando do amor a vida, aquilo que Jesus veio pra deixar como exemplo e disciplina.

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